sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Resenha - Contos de Amor e Crime, Afobório


Pelo simples fato de se tratar de um livro do Afobório, você já sabe o que não esperar de “Contos de Amor e Crime – Um Romance Violento.” Não espere um protagonista nos moldes clássicos de heroísmo, não espere tampouco um grande vilão que delineie o contrapeso maniqueísta “bem versus mal” – bem e mal nessa história são conceitos tão relativos e intricados quanto na complexa realidade que nos evolve. Você não pode esperar uma visão glamourizada do crime, um idealismo romântico das relações humanas e muito menos um conto de fadas dos aspectos sociais. Se é isso que você espera encontrar em um livro, então, meu camarada, melhor pensar duas vezes antes de abrir “Contos”. Esse alerta, aliás, está estampado na capa, na sinopse e no excelente prefácio escrito por Fabiano Cisticerco. No entanto, se você deseja prosseguir, a despeito da viagem ser feita por uma árdua estrada esburacada sem pavimento, acredite, no final você voltará para casa iluminado. Sim, pois que é preciso passar algum tempo dentro da escuridão para que se deseje a luz.


Contos de Amor e Crime é narrado em primeira pessoa, pelo próprio protagonista, identificado apenas como Jozz. Jozz é uma alegoria das diversas contingências de desigualdade social e racial da nossa terra – negro, morador de periferia, filho bastardo de uma prostituta cujo ato de carinho mais próximo que dispensou ao filho foi um tapa, produto de um país que, a despeito dos avanços, ainda cria uns filhos de modo privilegiado, com o melhor enxoval, melhor comida e educação, enquanto a outros relega à própria sorte. Jozz é daqueles que vivem à própria sorte, e sem outra opção conhecida ou ofertada, fez do crime não apenas seu modo de sobreviver, mas de se afirmar sobre a vida.

Para os leitores mais precipitados, pode até parecer que Afobório faz uma apologia ao crime, ao longo da narrativa. Mas, longe de defender as atitudes do protagonista como louváveis ou como os meios corretos de se impor sobre a injustiça do mundo, o autor registra e nos conta uma realidade que apenas é como é, a despeito da nossa vontade. Não adianta nossas convicções, o que pensamos que acontece nas margens da sociedade, o que achamos que devia ser. Não adiantam os olhos fechados, a boca calada como um túmulo. Independentemente disso, a violência, o crime e a morte são factíveis, são a realidade de uma parcela imensa do nosso país. Com isso, Afobório não defende nem condena, apenas mostra.

"Aliás, naquele instante, eu invejava as baratas por três motivos: primeiro, elas estavam livres, mesmo que em fila; segundo, elas deveriam gostar daquela gororoba; e terceiro, eu percebia que, quem ia se foder com essa coisa de mais segurança e mais disciplina era a gente. As baratas estavam em uma situação melhor do que a nossa [...]. Eu só tinha certeza de uma coisa: eu queria ser uma barata." (Pgs. 60-61)

Jozz, o Boy, Sô e tantos outros personagens compõem um quadro que raramente é visto – ou, se visto, é ignorado. São criações ficcionais, mas que representam pessoas de carne, sangue e osso. Pessoas que roubam, matam e amam. Afobório é hábil em mostrar que, apesar da atmosfera de animalidade que impele o ser humano a se tornar duro, frio e cruel, ainda há coração. Mesmo em meio a um universo de horrores violentos, Jozz nutre afeto pela esposa, pelo filho, pela comunidade onde vive. Se, para nossa sociedade, o crime é o meio errado utilizado para salvar sua vida e a dos seus, para Jozz era o único meio disponível.
Quem conhece Afobório através de sua página no facebook, reconhecerá facilmente seu estilo de escrita. Tanto na prosa quanto no verso, o escritor gaúcho que se apresenta de balaclava lança mão da palavra curta, objetiva e letal. A narrativa e a poética de Afobório são como uma pedrada nos olhos do leitor – uma pedra polida, mas não uma pedra de brilhante. Um tiro direto e certeiro. Aqui está a coisa e aqui está o que é preciso ser dito sobre ela, ponto. Pronto. É com esse poder de síntese e crueza que Afobório desenvolve sua marca maior e diz tudo que tem a dizer com força e potência. Mesmo seus poemas se desenvolvem de forma livre, fluída e cronística, como uma conversa feita de sujeito para sujeito – uma conversa rica e reveladora. Talvez por isso o livro, apesar de ser um romance, leve o nome de “Contos de Amor e Crime”. Também por conta do amor, que está sempre presente nos personagens e representa a humanidade em meio à selvageria de uma existência canina. Mas também pelo fato do livro se estruturar em capítulos curtos, como se cada um deles fosse um conto que vai se interligando ao outro, compondo um mosaico de sangue e denúncia social ao fim da leitura.
E no fim, quando regressamos da viagem, podemos até não ter encontrado o que procurávamos, mas, certamente, teremos encontrado aquilo que precisávamos. 

Ficha técnica: Contos de Amor e Crime - Um Romance Violento
Gênero: Romance
Editora: Os Dez Melhores
Ano: 2014 / 1ª Edição
Nº de páginas: 122
Preço: R$ 20,00

Elton SDL toma posse na APALCA - Academia Palmeirense de Ciências, Letras e Artes

Foi com imensa satisfação, honra e alegria, que no dia 19/06/2015, ingressei como membro e sócio efetivo da APALCA - Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes. Ocupando a cadeira de nº 03, cujo patrono é Francisco Nunes Brasil (Chico Nunes), espero contribuir com essa egrégia casa na promoção da arte e da cultura em nossa terra. 




Agradeço a todos que se fizeram presentes na linda cerimônia de posse - minha família, meus amigos, sem vocês a noite não teria sido tão maravilhosa como foi. Meus agradecimentos à Academia, na pessoa da presidente Isvânia Marques, pelo reconhecimento do meu trabalho como autor. Esse é um passo, sem dúvidas, dos mais significantes no caminho que venho percorrendo desde pequeno, quando tudo começou com nada mais que um sonho, o sonho de escrever. O sonho tornou-se necessidade (ou seria o inverso?), virou trabalho; e agora, torno a virar mais uma página nessa história, em meu livro dos dias. Para minha surpresa, ela está em branco. Pois não, vamos escrever.

Confira o vídeo com o discurso de posse aqui. 



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel virou passarinho...


Prosa nenhuma dará conta de dizer Manoel de Barros e sua poesia, nem de contar a tristeza sentida por sua despedida. Tem coisas que só a poesia faz, como faz e fez a poesia de Manoel - verso rasteiro, de caramujo, palavra escrita por debaixo, coisas de quem aprendeu a gramática do chão e ensinou que há um mundo nas pedras, nas árvores e nos insetos. O olhar nas coisas simples e pequenas revela grandezas, assim ele ensinou. 
Lembro da experiência que foi quando conheci Manoel, esse abridor de amanheceres, inventor de desperdícios essenciais. Foi quando li "Livro sobre Nada", de suas obras mais lindas a minha favorita. Li o livro numa noite, pois a beleza é exigente e eu não conseguia parar. Fui dormir alumbrado, acordei deslumbrado. Lembro bem, lembro como hoje. Passei o dia seguinte todo abestalhado com as palavras de Manoel. Eu fiquei, juro irmãos, literalmente com outra visão sobre o mundo e sobre as coisas. Olhava para a pedra, mas não era só mais a pedra que estava ali. De repente encarava uma árvore no caminho para a faculdade e posta ali estava outra coisa. A parede, o passarinho, o vento e as pessoas, não eram mais as mesmas - estavam contaminadas pelos versos de um menino que vivia no corpo de um doce velhinho. Menino esse que, após 97 anos de serviço à palavra e à vida, recolhe seu caderninho e vai para casa. Vai, menino Manoel, vai. Você passou tempo demais escrevendo sobre o chão. Agora, é chegada sua merecida hora - tempo de pipa, momento de viver nas alturas.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Elton SDL fala sobre seu mais novo livro, Sintoma do Mundo - entrevista por Ricardo Biazotto


No dia 5 de outubro de 2014, tive o prazer de conceder mais uma entrevista ao site literário Over Shock, do escritor e amigo Ricardo Biazotto. Nela, falei sobre meu novo trabalho, Sintoma do Mundo, sobre literatura, poesia. Em uma matéria muito bacana, Ricardo pontuou os principais trechos da entrevista que segue agora na íntegra para os leitores do blog. 




Ricardo Biazotto: Em sua opinião, o que mudou no mercado editorial desde a publicação de “Mentalmorfose”?


Elton SDL: Uma das coisas que mais tem chamado minha atenção desde 2012 é o aumento do número de autores publicando poesia. Acredito que esse fenômeno ocorreu junto com o surgimento de novas editoras independentes e pequenas editoras em geral, uma vez que os gigantes do mercado prezam pelas publicações em prosa – ou de poetas já consagrados, muitas vezes com reedições ou antologias de suas obras, o que para elas é mais viável comercialmente. No entanto, o novo autor não precisa mais ficar a mercê das grandes editoras, não precisa sequer ficar esperando por elas. As pequenas e médias editoras abrem um espaço muito grande para os poetas, ouso dizer até maior. Fiquei muito feliz em ver o número de títulos de poesia crescer nas prateleiras, desde 2012. Muitas pessoas tinham a impressão de haver pouca gente nova fazendo poesia – o que é uma grande inverdade. O que faltava era mais espaço e visibilidade para os novos poetas. 

Ricardo Biazotto: O que significa, para a sua carreira, a publicação de “Sintoma do Mundo”?

Elton SDL: Mais um passo dado e a resistência da poesia enquanto modo de vida. É gratificante saber e sentir que meu trabalho continua vivo, não apenas no sentido literário da coisa, mas no sentido existencial, pois é ele que me mantém vivo também. Continuar escrevendo e publicando é continuar, sobretudo, expressando-me. Comungar ideias com o leitor, manter um diálogo com o mundo, isso é muito importante para mim. 

Sintoma do Mundo também significa um amadurecimento não só na minha carreira, mas na minha própria vida e na minha poesia. Não sou completamente diferente daquele poeta que escreveu Mentalmorfose, mas também não sou exatamente o mesmo. As mudanças em nossas vidas são refletidas em nossa arte. Nesse sentido, os poemas de Sintoma do Mundo são mais maduros, ainda que isso signifique que eles são mais duros e sombrios, muitas das vezes. 

Ricardo Biazotto: Qual mensagem você quer transmitir com essa obra? E o que você pode comentar sobre a belíssima capa de Ricardo A. O. Paixão?

Elton SDL: A Editora Penalux faz um trabalho excelente em todos os segmentos – com a arte da capa não podia ser diferente. Embora eu já tivesse um conceito com o título e a imagem do livro já estivesse formada em mente, foram necessárias algumas tentativas até que o resultado final pudesse ser atingido de modo satisfatório. Isso porque mudei de ideia ao longo do processo de criação da capa. As conversas que tive com João Lemos, também da Penalux, sobre o conteúdo do livro e sobre as possibilidades de capa, contribuíram muito nessa evolução. Descrevi para João o que queria transmitir com o título e com o livro em si, disse para ele o tipo de imagem que tinha em vistas e ele me apresentou algumas artes. Dentre elas, uma gravura medieval chamada “Wound Man”, atribuída a Hans von Gersdorff. Assim que vi a gravura, pensei: “É isso! É exatamente isso que estou procurando!” A imagem era forte e tinha muito poder de comunicação visual, sem falar que casava perfeitamente com o livro. Felizmente ela se encontra em domínio público, então não tive problemas com direitos autorais, ao contrário do que pensei. Ricardo A. O. Paixão fez a composição da capa, trabalhando magistralmente com base na imagem e o resultado foi fantástico. 
Quero que cada leitor e cada leitura possa ter sua própria visão sobre o livro. Mas... muitos poemas falam sobre as dores, amores, alegrias e angústias que nos atingem muitas vezes, como armas afiadas. Amor e dor podem ter a mesma intensidade, a alegria e a tristeza podem recair sobre nós com bastante força. Estamos produzindo e sendo produzidos pelo mundo o tempo todo. Há muita coisa boa vindo dele, sem dúvidas, mas também vivemos em um mundo doente, sob muitos aspectos, de modo que, feridos por ele, tornamo-nos seus sintomas. Essa é uma das ideias por trás da capa e do título. Um homem mártir, condenado a sentir todas as dores que o mundo impõe, mas que ao mesmo tempo é desafiado constantemente a resistir. Longe de produzir um otimismo barato ou um pessimismo gratuito, mas, note que o homem da capa, apesar de destroçado e machucado, continua de pé. 



Ricardo Biazotto: Com a experiência da publicação anterior, você encontrou alguma diferença no processo de preparação de seu novo livro?

Elton SDL: Desde a fase de compilação dos poemas até o momento em que o livro foi para a gráfica, tudo foi diferente. Sintoma do Mundo possui o dobro de páginas, em relação ao primeiro livro. O maior volume de poemas aumentou naturalmente o trabalho de revisão e edição, houve bastante trabalho, tanto para a editora quanto para mim. O livro iria sair ainda maior do que ficou, mas, pensando na redução de custos da produção e visando um preço final acessível para o leitor, resolvemos por bem cortar alguns textos e diminuir o número de páginas. Nada que comprometa a obra, asseguro (risos). Não deixa de ser uma nova experiência estética, poética e existencial.
Tive a sorte e o prazer de encontrar na Penalux uma grande parceira, uma editora que não trata seu trabalho como apenas mais uma obra a ser publicada na agenda de trabalhos, mas sim como o resultado genuíno de um modo singular de pensar e sentir. Isso ajudou bastante no processo. Foi, em suma, um trabalho mais cuidadoso, com muito comprometimento de ambas as partes (autor e editora). Foi muito produtivo e humano. 


Com o escritor Imortal da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres


Trocando livros e autógrafos também com o escritor Carlito Lima



   


Ricardo Biazotto: Qual a sua expectativa em relação ao evento de lançamento de “Sintoma do Mundo”, que acontecerá em 17 de outubro?

Elton SDL: Estou bastante empolgado com o lançamento. A Livraria Adapter vem se destacando no interior de Alagoas por promover acesso e difusão em termos de arte, cultura e leitura, através da promoção de eventos, incentivando não apenas o público a consumir mais literatura, mas também cedendo espaço para os produtores de literatura, sejam eles novos ou veteranos. Fiquei honrado e feliz com o convite por parte da livraria, será um evento bonito. Além do lançamento do meu livro, o evento promoverá palestras, apresentações musicais com bandas locais e livros a preços acessíveis para toda a população. Farei um pequeno bate-papo com o público, antes da sessão de autógrafos. Espero receber muitos leitores e amantes da poesia. 
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Lançamento de Sintoma do Mundo, de Elton SDL


Saudações, leitores e leitoras!

Estive um pouco negligente com meu espaço aqui no blog. O motivo, aquela velha (mas verídica) história da falta de tempo. Diversas coisas aconteceram desde minha última postagem até agora. E, apesar de a maioria delas ter ficado sem nota por aqui, todas foram divulgadas em meu perfil e em minhas páginas do facebook - por uma questão de facilidade, praticidade e economia de tempo. Porém, eu não poderia deixar de registrar algumas novidades nesse meu espaço da blogosfera - onde muita coisa começou. 

Depois de publicar meu primeiro livro, Mentalmorfose, em 2012, participei de diversas antologias de contos e poesia, junto com autores do Brasil inteiro. As mais recentes, antologia poética da editora Ases da Literatura e a antologia de crônicas da Cogito Editora, intitulada Solilóquio. Com isso, totalizo 7 participações em antologias, desde 2012. Minha maior realização pessoal e literária desse ano, no entanto, foi o lançamento de Sintoma do Mundo, meu segundo livro solo de poesia lançado pela Editora Penalux



O lançamento do livro ocorreu no dia 17/10/14, em um evento dos mais especiais: a Feira de Livros da Livraria Adapter, na cidade de Arapiraca-AL. Outro lançamento em vistas, agendado para o dia 28/11/14, ocorrerá no IFAL - Palmeira dos Índios, durante a FLIJUPIN (Festival do Livro Infantojuvenil de Palmeira dos Índios), às 15:00h. 




Veja outras fotos do lançamento na página oficial do livro no facebook, clicando aqui.

Poetize!


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Resenha - Minha Vida, Robert Crumb

AVISO: A leitura deste post não é recomendável para menores de 18 anos. 


É fato comum que grandes artistas tenham suas histórias contadas por si próprios. Nada melhor, então, para um grande cartunista, que ter sua autobiografia contada e desenhada em uma história em quadrinhos.
"Minha Vida" é a obra autobiográfica que relata a trajetória pessoal e profissional de Robert Crumb (ou apenas Bob Crumb), renomado artista gráfico do século XX. Crumb foi um dos pioneiros do movimento underground dos quadrinhos que despontou nos EUA, durante a década de 1960.  Muito influente na cena alternativa e hippie da época, Crumb criou clássicos como a Zap Comix, Mr. Natural e o infame e célebre Fritz, the cat. Suas obras eram dotadas de uma linguagem ácida, sarcástica e subversiva - elementos inovadores para as histórias em quadrinhos que, até então, eram regulamentadas pelo falso moralismo puritano da América. Não foi por menos que demoraram a sair no Brasil. Crumb realmente se empenhou em quebrar com os padrões comerciais e elevar as histórias em quadrinhos a outro patamar (àquilo que muitos chamam de graphic novel), por isso nunca se rendeu à indústria cultural, embora tenha obtido bastante fama e êxito. 


Dono de um traço rebelde, trêmulo e paranoico que revela a própria alma do artista, Robert Crumb conta, ao longo de mais de cem páginas, diversas etapas de sua vida, com espantosa sinceridade, doses maciças de humor negro e nenhuma, absolutamente NENHUMA autopiedade. Em "Minha Vida" conhecemos de forma escancarada os elementos que formaram a personalidade de Crumb. Sua infância foi construída com base em relações paternas turbulentas, sob rígida higiene moral do cristianismo e brutais repressões internas e sociais. Por isso mesmo tem experiências libertinas e desenfreadas quando se vê emancipado do seu "meio natural" e com alguma consolidação profissional já em seu histórico. 

Durante sua incursão no movimento hippie experimenta a liberdade que nunca teve: viaja com o LSD (fato que repercute tanto positiva quanto negativamente em seu trabalho, como ele mesmo confessa, sem discursos moralistas) e dá evasão a seus desejos sexuais tão reprimidos. Esse é mais um elemento presente em suas obras; Crumb representa suas fantasias mais hediondas e desenha o sexo feminino sempre com um olhar lascivo e faz dele alvo de seus instintos desenfreados. A isso se devem as acusações de pornográficas, imorais e machistas, dirigidas às obras de Crumb. No entanto, como o próprio diria, ele estava "cagando e andando" para isso.                        
Crumb é uma metralhadora insana que atira para todos os lados. Critica mordazmente o comunismo, o capitalismo, o feminismo, a religião, o academicismo, a guerra, o pacifismo, a indústria cultural e o próprio meio contracultural do qual faz parte. Não poupa a nada nem a ninguém, muito menos a si mesmo - alvo maior de seus ataques, sem autoindulgência. Crumb se mostra abertamente como um ser egomaníaco, pervertido, niilista, idiota, pretensioso, fracassado e genial. Mas não se faz de coitadinho. Ele esboça com perfeição o protótipo do homem moderno e contemporâneo - uma pilha de paranoias, desejos reprimidos e frustrações. 

É muito fácil se identificar em vários pontos durante a leitura de "Minha Vida." A diferença é que, enquanto a maioria de nós tenta esconder nossas verdades mais deturpadas e nossas fraquezas maiores, Crumb não faz o mínimo esforço pra se mostrar forte. Sua vida é uma HQ aberta. No fim, fica impressa ao leitor pelo menos uma justificativa existencial: além de homem ele também é artista. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

93 anos (e muito mais) de Charles Bukowski



Se vivo estivesse, Charles Bukowski, o polêmico e genial escritor conhecido como "Velho Safado", estaria completando 93 anos no dia de hoje, 16 de Agosto de 2013. No intuito de render uma singela homenagem a um de meus autores favoritos, reproduzo aqui um post de minha autoria publicado originalmente em minha coluna no site Leitor Cabuloso

Beberrão, machista, hedonista, misantropo e, dentre tantos outros adjetivos, sobretudo, genial. Esse é Charles Bukowski, poeta associado aos escritores marginais e malditos, considerado por Jean-Paul Sartre (filósofo francês existencialista) como “o melhor poeta da América”. Nada de muito bom poderia sair de um escritor que ficou comumente conhecido como “velho safado”, correto?
Errado.

Charles Bukowski (1920-1994) nasceu em Andernach, na Alemanha, mas criou-se em meio à pobreza de Los Angeles – fator que determinaria significantemente a formação de sua visão  de mundo e também de seus escritos. Foi um dos raros casos literários no qual “o homem tornou-se maior que a lenda”. A vida extremamente transparente envolta em polêmicas, escândalos e controvérsias que levava alavancou sua obra de forma que, muitas vezes, sua imagem pessoal se sobrepunha à de escritor. Sua literatura é de caráter extremamente autobiográfico, não raro, escrita em primeira pessoa, e nela abundam temas e personagens marginais. A exemplo dos escritores do movimento beat, porém de uma forma mais crua, violenta e direta (O “Velho Buk” não gostava muito do uso de adjetivos, visto que eles “inflacionariam os substantivos”), Bukowski extraiu literatura dos recantos mais sórdidos, excluídos e sujos da sociedade e da mente humana. Sua convivência direta e contínua com um universo infernal de perdedores, bêbados, prostitutas, hotéis baratos, fome e desolação, rendeu material para sua prosa e poesia. Em um primeiro momento parece impossível extrair qualquer tipo de verso de uma realidade tão desvairada e insalubre. É muito mais comum fazer poesia sobre a flor, a alegria, o amor. No entanto, Bukowski soube como ninguém extrair um lirismo transcendental do vômito, da náusea, do sexo inescrupuloso, das banalidades e loucuras do cotidiano que não nos mostram nas propagandas de margarina.

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados


faça como um touro no momento do primeiro ataque


e lembre dos velhos cães

que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski,  Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos

em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres

sem comida
sem esperança

então você não está pronto.


beba mais cerveja.

há tempo.
e se não há
está tudo certo
também. 


A liberdade formal com a qual escrevia, denotava o caráter de liberdade pessoal – algumas vezes associada com o fluxo de consciência ou com o delirium tremens - do estilo bukowskiano. O autor não se detinha aos paradigmas clássicos da escrita poética. Não nutria grandes preocupações com a organização dos versos e estrofes ao longo do papel, iniciais maiúsculas, pontuação ou esquemas de rimas. A grande maioria de seus poemas são de versos brancos (sem rimas), o que configura ritmos e leituras bastante interessantes.


as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres

estamos com medo.

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.

ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.


Muitos consideram os versos de Charles Bukowski desesperadores, pessimistas e obscuros. Estão certos. Bukowski reproduz as nuanças frias e desnudas da realidade não como um mero observador alheio, que levanta conjecturas à distância de uma possível vivência – Bukowski está inserido na própria realidade por ele (d)escrita; ele vive o dia a dia de uma existência que beira o niilismo, respira o ar contaminado de fuligem, cheira a urina de rato das paredes de seu apartamento… ele vê “o lado escuro da lua”, um lado inegável, a despeito do incômodo que possa ser para muitos enxergá-lo. Como ele mesmo disse: “os hospícios raramente estão visíveis”. Mas Bukowski não é só todo eclipse; em meio à rispidez de seu ser e de suas palavras há uma imensa vontade de viver, uma pulsão de vida e esperança incrível, mesmo que soterrada em meio ao pó e a lama. Há a sensibilidade de um homem marcado por cicatrizes no rosto e no coração em ver alguma iluminura num quadro borrado. Há um olhar que capta a essência mesmo das dimensões mais vazias. Por isso que julgo o poema “Pássaro Azul” como um dos mais belos por ele já escrito e o que revela verdadeiramente quem é Charles Bukowski:

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?



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