terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Resenha - Um Lugar Escuro, Leonardo Zegur

  


  Em uma sociedade de moldes contemporâneos que é reflexo direto do que vemos descrito em Um Lugar Escuro, tornou-se lugar comum nos depararmos com muitos "autores", mas poucos "escritores". Adjacentemente a isso temos como produto consequente muitos livros publicados. Mas, poucas obras literárias. Portanto, se ao abrir o livro em questão, degustar suas primeiras páginas aguardando uma literatura suave e segura, melhor seria se o jogasse de lado e saísse à procura de algo que não ponha em risco sua paz de espírito.

   Um Lugar Escuro é uma cusparada direta e selvagem na cara do leitor nacional - tão habituado a leituras alheias e sossegadas. Ainda mais para a sociedade carioca - alvo maior da flechada fulminante de Zegur - que tem por obrigatoriedade sentir uma lança em brasa traspassar seus miolos.





O livro UM LUGAR ESCURO, baseado em uma história real de Leonardo Zegur,  primeiro de sua carreira como escritor, aborda temas atuais como discriminação, bullying e vício em tecnologia e internet. A história foi baseada em elementos da vida de dois amigos do autor.

O autor define o livro como um romance psicológico naturalista, em que narra a história de um jovem carioca, morador da Zona Norte, tentando coexistir em uma sociedade onde é discriminado por não possuir os padrões exigidos pela cultura popular local. Na tentativa de se posicionar dentro de outra realidade, o jovem se transforma numa pessoa que nunca quis ser, sofrendo assim com as consequências deste comportamento.

A trama, que acontece no Rio de Janeiro, dentre muitos bairros, Quintino e Encantado, mostra que para lidar com o sentimento de rejeição, o protagonista acaba se envolvendo em uma onda de assassinatos canalizados em moças jovens e bonitas. Com a divulgação destas notícias nos tabloides, o jovem atrai seguidores em todo Brasil que se identificam com suas causas.

Para que o leitor pudesse participar integralmente e se colocar como personagem principal da trama, o autor, de forma proposital, preferiu não dar nome ao protagonista. Além disso, o livro mostra um Rio de Janeiro sobre outro ponto de vista, presumindo consequências desencadeadas pelas falhas do sistema que rege a sociedade.

Com um texto denso e extremamente visual, UM LUGAR ESCURO, sinaliza que a vida em uma sociedade complexa não é tão simples. Cada minuto que se passa é uma vitória, vencendo todo tipo de preconceito.



   É com a destreza hábil de um contistas que o escritor Leonardo Zegur desenvolve a narrativa de seu inquietante romance. Sim, pois ele consegue com êxito contar a saga do "justiceiro carioca" lançando mão de uma linguagem enxuta e direta, mas, ainda assim rica e completa (elementos que nem sempre são sinônimos; não é o caso de Zegur, obviamente). Permeando toda a história - que na verdade é tão somente o pano de fundo para algo mais grandioso - estão críticas sociais, políticas e culturais ácidas e sem rodeios, fazendo o gelo fino que a sociedade ostenta se romper, revelando-nos assim, a verdadeira superfície até então oculta. Esses disparos feitos pelo autor são aproveitados durante todo o desenrolar do texto, figurando como a "cereja no topo do bolo" literária.

  Como foi visto no escrito supracitado, o personagem principal não possui nome - fato que remete aos personagens do Mestre Graciliano Ramos, em uma de suas obras mais ambiciosas, Vidas Secas. O próprio autor afirma que recurso tão engenhoso foi utilizado a fim de que todo e qualquer um que se deparasse com o personagem principal, pudesse ter um grau de identificação maior. E isso é verdadeiro, tanto que se torna impossível não se enxergar nele em um ponto ou noutro, uns mais outros menos. O "Sem nome" é a síntese simbólica perfeita que encarna os céus e infernos de todos nós, vivendo situações que já nos atingiram em dado momento de nossas existências - da mesma forma que, apesar da sociedade alvo ser a carioca, ela figura tão somente como uma grande metáfora para todas as sociedades existentes, suas falhas, vícios e deslizes. Ainda se tratando do desditoso heroi (ou anti-heroi, isso vai ser relativo ao leitor) da trama, o fato de ele não possuir nome nos mostra ainda o que uma pessoa pode se tornar perante às massificações e efeitos gerais que a sociedade tende a surtir no indivíduo - um ser sem identidade, personalidade, alheio e alienado, existindo somente; não vivendo.
  É nesse ponto um tanto existencial do livro que, as duras penas vividas pelo "Inominável" faz uma relação intertextual com as obras de J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio) e do francês Albert Camus (O Estrangeiro). Lembra Salinger no que diz respeito ao modo peculiarmente seco e mal-humorado, embargado em tom de revolta ao narrar. E a parcela camusiana se dá no que diz respeito aos efeitos do meio sobre o homem, gerando uma máquina esquizoide de carne e osso, sem dimensões de propósito (apesar de que, enquanto Marsault, personagem de Camus vive inerte e mergulhado em alienação, alheio ao que lhe ocorre, o heroi de Zegur toma posicionamento crítico e reflexivo sobre os eventos que o afetam e age em prol de modificações).
  São elementos que denotam o tom naturalista do livro e levanta um questionamento antigo, surgido no século XIX: É o homem produto do meio ou apenas agente modificador do mesmo? Para Zegur, os parâmetros comportamentais e sócio-culturais, o ser como um todo, é resultado direto da influência do meio. E as forças modificadoras, apesar de existentes, não são nada além de meros suspiros trepidantes se comparados à força devastadora do locus. É uma perspectiva aterradora, se pensarmos bem - todavia, existente, lamentavelmente real, somente um tanto obscurecida pelas nuvens.

  Como história, a obra nos deleita com uma prosa gostosa e de fácil acesso, com um ritmo cadenciado que insurge em todas as linhas. As características de romance policial mediante as ações do protagonista, dão um tom peculiar de mistério e devaneio. Apenas o final se desenrolou rápida e abruptamente demais, dando a falsa sensação de que o autor "estava com pressa". Além disso, alguns erros de revisão são catados em meio à panela, aqui ou acolá - quanto a isso, deve-se irrelevar, pois o fato está ligado a questões editoriais, comerciais e de produção; e quem conhece os moldes do mercado há de ser conivente.
   Leonardo Zegur nos presenteia por todo o livro, apresentado-nos a teoria a qual chama de "A Tirania do Belo". Um interessante tratado e análise de um mal invisível que nos rodeia como um espírito maldito, sem todavia nos darmos conta, por vezes. A repetição ligeiramente excessiva e um tanto igual de tal tese, que distribui-se ao longo das páginas, é que faz com que se pense "Ok, já entendi isso." *(Ver nota ao fim do artigo)
   No mais, a despeito dos pequenos titubeios (perfeitamente comuns e compreensíveis), Um Lugar Escuro não se deixa ofuscar. Pois, a qualidade da obra está calcada no seu substrato primordial: a essência. E a essência, caros leitores, esparrama-se aos montes nessa venturosa construção literária que, ao tempo que joga personagem e leitor nos recantos mais sombrios da vida, ilumina e traz à luz da compreensão monstros viscosos e peçonhentos que necessitam ser exterminados. 
  Não seria exagero de minha parte, de forma alguma, posicionar o escritor Leonardo Zegur na condição de "um dos maiores autores ascendentes da literatura brasileira." Portanto, de pé senhoras e senhores - aplaudam Leonardo Zegur, porque, Um Lugar Escuro é o que há.


*NOTA: Posteriormente, em uma conversa com o autor, ele esclareceu-me acerca do fator repetição que mencionei acima, presente na obra. Eu, erroneamente, achei ter sido este fato alguma espécie de "deslize" narrativo. Porém, como esclareceu-me Leonardo Zegur, tal ocorrência  é manifestada devido a uma característica psicopatológica inata ou tendenciosa a indivíduos que apresentam os trejeitos psicológicos do protagonista. Em outras palavras: A repetição é uma característica na psicopatologia do personagem.
Portanto, como podem notar, foi algo bastante sutil e muito bem colocado pelo escritor, haja vista sua formação na área de psicologia.
Agradeço a Leonardo Zegur pela explicação, ao tempo que peço sinceras desculpas pelo equívoco.
  

3 comentários:

  1. Teste (disseram-me que estavam com problemas para comentar).

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  2. Elton, seguindo sua sugestão não poderia deixar de conhecer a obra do Leonardo. E por tudo aquilo que você citou, de forma tão empolgante quanto a obra, não poderia deixar de se interessar. O gênero apenas engrandece o desejo de conhecer um pouco mais da obra e conferir todos os pontos e as ideias que estão na cabeça do autor. De fato os pequenos erros são meros detalhes que não devem atrapalhar a obra.
    Se possível, vou conhecer Um Lugar Escuro e vou entrar em contato com o autor.

    Abraços e parabéns pela resenha.
    Ricardo - www.overshock.blogspot.com.br

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  3. Pois faz bem em acatar a sugestão, Ricardo. É um livro bastante notório que merece a leitura de todo bom devorador de livros, de toda cabeça pensante, até porque trata de um tema pertinente a todos nós.
    Não deixe de conferir - o livro e o autor são sensacionais!

    Abraços e obrigado!

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