sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Rabo do Gato - Um miniconto de Sexta-feira 13

  

O RABO DO GATO
                                                                                 Elton SDL


   
   O ativista membro da Sociedade Protetora dos Animais, não acreditava em sorte, azar ou fatalidades oriundas do destino de qualquer natureza. Não foi culpa dele se na enésima oportunidade de mudar sua concepção não teve o tempo necessário.
  O que ele queria, realmente, era alcançar o gato de pêlo preto que avançava para o outro lado da rua, enquanto estupefato ele permanecia na calçada. Estava em seu encalço desde que cruzara a Avenida Principal - coisa de uns dez minutos atrás. Como não pôde alcançar os dois pivetes cheios de muco em seus narizes, corria agora na esperança de ajudar o felino, que tinha o rabo delgado preso em um pedaço de barbante com uma garrafa de refrigerante na ponta. Os moleques tinham dado um nó dos diabos fazendo com que a agonia do bichano se tornasse mais intensa, não bastasse os desafios diários de ser um gato escuro numa cidade sem luz.
  Decidido, não esperou mais e lançou-se em disparada, mesmo em pleno trânsito - caso contrário, perderia o animal de vista. Os carros zuniam enquanto ele cortava e costurava os veículos, tentando imitar a destreza de seu exímio fugitivo. O sinal não fechava, mas um caminhão que acabava de sair da madeireira com seu novo carregamento matinal tratou de fechar seu caminho. A buzina gritou. Ele, nem isso conseguiu. Mas o pé do motorista enterrado no freio parou o automóvel a tempo, a alguns centímetros de seu nariz - um lance de... sorte? De qualquer modo, não esperou pelas gentis palavras do caminhoneiro rude e disparou, ainda cambaleante pelo susto.
  Tropeçando feito um trapezista insano e altamente drogado, entrou à esquerda em uma viela escura e fétida. A estreiteza do beco não condizia com a quantidade generosa de gotas de suor que emanavam de seus poros. Mas, enfim, lá estava ele: o gato, parado embaixo de uma escada. Lambia-se em frente a um espelho velho que jazia recostado numa parede úmida e lodosa, com adornos enferrujados de alguma mistura de ferro e aço que circundavam todo o vidro. Por um momento o animal ignorava tranquilamente o seu rabo emaranhado em barbante. Todos precisam de um tempo para fingir que não há nenhum problema às suas costas. Mas, sua experiência com animais havia lhe ensinado que, por mais que as coisas estivessem calmas agora, aquela pequena armadilha embutida, poderia trazer...
  Problemas.
  Agachado como uma galinha idiota, arriscou uma aproximação - a ruazinha estreita não tinha saída, antes, encerrava-se com um muro de tijolos desnudos e vermelhos, o que diminuía as chances de escape do felino.






  - Bichano, vem cá, bichano - chamou.
  O animal não se moveu distância; ao que parecia não notara a presença de seu salvador. Nisso, aproveitou o ensejo e saltou no felino, esperançoso de agarrá-lo e livrá-lo de seu tormento. O gato foi mais rápido e, em seu reflexo descomunal de pupilas dilatadas, desviou-se.
  O pobre homem passou direto, prendeu-se na escada. Com o pescoço sufocando entre os espaços dos degraus de madeira (que soltavam farpas, espetando-lhe a já sangrada garganta), tropeçou tateando o ar como uma toupeira com astigmatismo. Bateu com estrondosa força no espelho à sua frente - o rosto foi ferido em cheio pelos estilhaços cortantes de vidro espesso; parte de seu nariz se desprendia da cartilagem e pedia para escorregar alegremente no jato de sangue. Um tobogã de água vermelha. Na sequência, as partes de ferro que permeavam o espelho, soltaram-se e atingiram seu crânio. A perfuração foi profunda. A morte, instantânea.
  O gato deu a volta, passou por cima do corpo ensanguentado e inanimado. Andava despreocupado em direção à rua enquanto o barbante afrouxava em seu rabo. Uma ou duas balançadas depois, o cordãozinho com a garrafa de refrigerante diet na ponta caiu e deixou o felino negro seguir em liberdade seu caminho.
  A ambulância chegou duas horas depois, quando a prostituta que ia ao ofício ligou histérica para o número de emergência.
  Mais tarde, ao preencher a papelada no necrotério, o legista deixaria registrada aquela brutal e inusitada morte, numa manhã fatídica - aproximadamente às 9 da manhã -  em uma sexta-feira, dia 13.

3 comentários:

  1. Um ótimo conto pra "comemorar" essa sexta-feira 13.
    Esses gatos...

    Parabéns Elton \o/ Sua escrita sempre fantástica e prendendo o leitor do inicio ao fim. E esse final - assim como os outros contos que tive a oportunidade de ler - surpreendendo e ao mesmo sendo marcante.

    Vou divulgar :)

    Abraços
    Ricardo - www.overshock.blogspot.com.br

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  2. AAAAAA parabéns Elton o conto ficou demais! Adorei! *-------*

    Beijão

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  3. Muito obrigado, Ricardo e Thalita! Vocês sempre gentis e dando aquele apoio crucial!
    Fico feliz que tenham gostado!

    Abraços!

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