sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Resenha - Minha Vida, Robert Crumb

AVISO: A leitura deste post não é recomendável para menores de 18 anos. 


É fato comum que grandes artistas tenham suas histórias contadas por si próprios. Nada melhor, então, para um grande cartunista, que ter sua autobiografia contada e desenhada em uma história em quadrinhos.
"Minha Vida" é a obra autobiográfica que relata a trajetória pessoal e profissional de Robert Crumb (ou apenas Bob Crumb), renomado artista gráfico do século XX. Crumb foi um dos pioneiros do movimento underground dos quadrinhos que despontou nos EUA, durante a década de 1960.  Muito influente na cena alternativa e hippie da época, Crumb criou clássicos como a Zap Comix, Mr. Natural e o infame e célebre Fritz, the cat. Suas obras eram dotadas de uma linguagem ácida, sarcástica e subversiva - elementos inovadores para as histórias em quadrinhos que, até então, eram regulamentadas pelo falso moralismo puritano da América. Não foi por menos que demoraram a sair no Brasil. Crumb realmente se empenhou em quebrar com os padrões comerciais e elevar as histórias em quadrinhos a outro patamar (àquilo que muitos chamam de graphic novel), por isso nunca se rendeu à indústria cultural, embora tenha obtido bastante fama e êxito. 


Dono de um traço rebelde, trêmulo e paranoico que revela a própria alma do artista, Robert Crumb conta, ao longo de mais de cem páginas, diversas etapas de sua vida, com espantosa sinceridade, doses maciças de humor negro e nenhuma, absolutamente NENHUMA autopiedade. Em "Minha Vida" conhecemos de forma escancarada os elementos que formaram a personalidade de Crumb. Sua infância foi construída com base em relações paternas turbulentas, sob rígida higiene moral do cristianismo e brutais repressões internas e sociais. Por isso mesmo tem experiências libertinas e desenfreadas quando se vê emancipado do seu "meio natural" e com alguma consolidação profissional já em seu histórico. 

Durante sua incursão no movimento hippie experimenta a liberdade que nunca teve: viaja com o LSD (fato que repercute tanto positiva quanto negativamente em seu trabalho, como ele mesmo confessa, sem discursos moralistas) e dá evasão a seus desejos sexuais tão reprimidos. Esse é mais um elemento presente em suas obras; Crumb representa suas fantasias mais hediondas e desenha o sexo feminino sempre com um olhar lascivo e faz dele alvo de seus instintos desenfreados. A isso se devem as acusações de pornográficas, imorais e machistas, dirigidas às obras de Crumb. No entanto, como o próprio diria, ele estava "cagando e andando" para isso.                        
Crumb é uma metralhadora insana que atira para todos os lados. Critica mordazmente o comunismo, o capitalismo, o feminismo, a religião, o academicismo, a guerra, o pacifismo, a indústria cultural e o próprio meio contracultural do qual faz parte. Não poupa a nada nem a ninguém, muito menos a si mesmo - alvo maior de seus ataques, sem autoindulgência. Crumb se mostra abertamente como um ser egomaníaco, pervertido, niilista, idiota, pretensioso, fracassado e genial. Mas não se faz de coitadinho. Ele esboça com perfeição o protótipo do homem moderno e contemporâneo - uma pilha de paranoias, desejos reprimidos e frustrações. 

É muito fácil se identificar em vários pontos durante a leitura de "Minha Vida." A diferença é que, enquanto a maioria de nós tenta esconder nossas verdades mais deturpadas e nossas fraquezas maiores, Crumb não faz o mínimo esforço pra se mostrar forte. Sua vida é uma HQ aberta. No fim, fica impressa ao leitor pelo menos uma justificativa existencial: além de homem ele também é artista. 

Um comentário:

  1. Olá, estimado amigo.
    Depois de longa ausência, volto a lhe visitar e o faço me expressando em poucas palavras:
    “Sejas feliz, muito...”
    Aceite meu abraço e até mais!

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