quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel virou passarinho...


Prosa nenhuma dará conta de dizer Manoel de Barros e sua poesia, nem de contar a tristeza sentida por sua despedida. Tem coisas que só a poesia faz, como faz e fez a poesia de Manoel - verso rasteiro, de caramujo, palavra escrita por debaixo, coisas de quem aprendeu a gramática do chão e ensinou que há um mundo nas pedras, nas árvores e nos insetos. O olhar nas coisas simples e pequenas revela grandezas, assim ele ensinou. 
Lembro da experiência que foi quando conheci Manoel, esse abridor de amanheceres, inventor de desperdícios essenciais. Foi quando li "Livro sobre Nada", de suas obras mais lindas a minha favorita. Li o livro numa noite, pois a beleza é exigente e eu não conseguia parar. Fui dormir alumbrado, acordei deslumbrado. Lembro bem, lembro como hoje. Passei o dia seguinte todo abestalhado com as palavras de Manoel. Eu fiquei, juro irmãos, literalmente com outra visão sobre o mundo e sobre as coisas. Olhava para a pedra, mas não era só mais a pedra que estava ali. De repente encarava uma árvore no caminho para a faculdade e posta ali estava outra coisa. A parede, o passarinho, o vento e as pessoas, não eram mais as mesmas - estavam contaminadas pelos versos de um menino que vivia no corpo de um doce velhinho. Menino esse que, após 97 anos de serviço à palavra e à vida, recolhe seu caderninho e vai para casa. Vai, menino Manoel, vai. Você passou tempo demais escrevendo sobre o chão. Agora, é chegada sua merecida hora - tempo de pipa, momento de viver nas alturas.


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