sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Resenha - Contos de Amor e Crime, Afobório


Pelo simples fato de se tratar de um livro do Afobório, você já sabe o que não esperar de “Contos de Amor e Crime – Um Romance Violento.” Não espere um protagonista nos moldes clássicos de heroísmo, não espere tampouco um grande vilão que delineie o contrapeso maniqueísta “bem versus mal” – bem e mal nessa história são conceitos tão relativos e intricados quanto na complexa realidade que nos evolve. Você não pode esperar uma visão glamourizada do crime, um idealismo romântico das relações humanas e muito menos um conto de fadas dos aspectos sociais. Se é isso que você espera encontrar em um livro, então, meu camarada, melhor pensar duas vezes antes de abrir “Contos”. Esse alerta, aliás, está estampado na capa, na sinopse e no excelente prefácio escrito por Fabiano Cisticerco. No entanto, se você deseja prosseguir, a despeito da viagem ser feita por uma árdua estrada esburacada sem pavimento, acredite, no final você voltará para casa iluminado. Sim, pois que é preciso passar algum tempo dentro da escuridão para que se deseje a luz.


Contos de Amor e Crime é narrado em primeira pessoa, pelo próprio protagonista, identificado apenas como Jozz. Jozz é uma alegoria das diversas contingências de desigualdade social e racial da nossa terra – negro, morador de periferia, filho bastardo de uma prostituta cujo ato de carinho mais próximo que dispensou ao filho foi um tapa, produto de um país que, a despeito dos avanços, ainda cria uns filhos de modo privilegiado, com o melhor enxoval, melhor comida e educação, enquanto a outros relega à própria sorte. Jozz é daqueles que vivem à própria sorte, e sem outra opção conhecida ou ofertada, fez do crime não apenas seu modo de sobreviver, mas de se afirmar sobre a vida.

Para os leitores mais precipitados, pode até parecer que Afobório faz uma apologia ao crime, ao longo da narrativa. Mas, longe de defender as atitudes do protagonista como louváveis ou como os meios corretos de se impor sobre a injustiça do mundo, o autor registra e nos conta uma realidade que apenas é como é, a despeito da nossa vontade. Não adianta nossas convicções, o que pensamos que acontece nas margens da sociedade, o que achamos que devia ser. Não adiantam os olhos fechados, a boca calada como um túmulo. Independentemente disso, a violência, o crime e a morte são factíveis, são a realidade de uma parcela imensa do nosso país. Com isso, Afobório não defende nem condena, apenas mostra.

"Aliás, naquele instante, eu invejava as baratas por três motivos: primeiro, elas estavam livres, mesmo que em fila; segundo, elas deveriam gostar daquela gororoba; e terceiro, eu percebia que, quem ia se foder com essa coisa de mais segurança e mais disciplina era a gente. As baratas estavam em uma situação melhor do que a nossa [...]. Eu só tinha certeza de uma coisa: eu queria ser uma barata." (Pgs. 60-61)

Jozz, o Boy, Sô e tantos outros personagens compõem um quadro que raramente é visto – ou, se visto, é ignorado. São criações ficcionais, mas que representam pessoas de carne, sangue e osso. Pessoas que roubam, matam e amam. Afobório é hábil em mostrar que, apesar da atmosfera de animalidade que impele o ser humano a se tornar duro, frio e cruel, ainda há coração. Mesmo em meio a um universo de horrores violentos, Jozz nutre afeto pela esposa, pelo filho, pela comunidade onde vive. Se, para nossa sociedade, o crime é o meio errado utilizado para salvar sua vida e a dos seus, para Jozz era o único meio disponível.
Quem conhece Afobório através de sua página no facebook, reconhecerá facilmente seu estilo de escrita. Tanto na prosa quanto no verso, o escritor gaúcho que se apresenta de balaclava lança mão da palavra curta, objetiva e letal. A narrativa e a poética de Afobório são como uma pedrada nos olhos do leitor – uma pedra polida, mas não uma pedra de brilhante. Um tiro direto e certeiro. Aqui está a coisa e aqui está o que é preciso ser dito sobre ela, ponto. Pronto. É com esse poder de síntese e crueza que Afobório desenvolve sua marca maior e diz tudo que tem a dizer com força e potência. Mesmo seus poemas se desenvolvem de forma livre, fluída e cronística, como uma conversa feita de sujeito para sujeito – uma conversa rica e reveladora. Talvez por isso o livro, apesar de ser um romance, leve o nome de “Contos de Amor e Crime”. Também por conta do amor, que está sempre presente nos personagens e representa a humanidade em meio à selvageria de uma existência canina. Mas também pelo fato do livro se estruturar em capítulos curtos, como se cada um deles fosse um conto que vai se interligando ao outro, compondo um mosaico de sangue e denúncia social ao fim da leitura.
E no fim, quando regressamos da viagem, podemos até não ter encontrado o que procurávamos, mas, certamente, teremos encontrado aquilo que precisávamos. 

Ficha técnica: Contos de Amor e Crime - Um Romance Violento
Gênero: Romance
Editora: Os Dez Melhores
Ano: 2014 / 1ª Edição
Nº de páginas: 122
Preço: R$ 20,00

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